Lúpus tira vida de médica joinvilense

Maíra Fachini, filha do ex-vereador João Fachini, morreu semana passada depois de 23 dias internada

A semana que passou foi marcada por uma perda lastimável em Joinville. A jovem médica Maíra Fachini, de 28 anos, morreu no último dia 13 em decorrência de lúpus, doença ainda de causas desconhecidas em que o sistema imunológico inverte o jogo e passa a atacar os órgãos do corpo humano.

Em 1999, Maíra foi a única joinvilense a ingressar na primeira turma da Escola Latinoamericana de Medicina, em Cuba e, desde 2006, atuava como médica do Programa Saúde da Família (PSF) em uma comunidade ribeirinha do município de Tefé, no coração da Floresta Amazônica.

Os primeiros sintomas da doença foram notados no dia 13 de março deste ano. Maíra participava de um congresso em Brasília quando, em contato telefônico com o irmão Marcos Tiarajú, reclamou de dores pelo corpo e cansaço. O irmão a teria aconselhado a retornar a Joinville. Mas ela resolveu continuar se dedicando à sua profissão. Porém, uma semana depois, o quadro se agravou.

"Com o diagnóstico de lúpus confirmado, Maíra retornou a Joinville no dia 21 de março e no dia seguinte foi internada, seu estado já estava bem debilitado", confirma o outro irmão, Rodrigo Fachini.

No lúpus, os principais alvos são as articulações, as artérias, a pele, os rins, os pulmões e o coração. Em casos mais graves até o cérebro é afetado. Maíra teve uma hemorragia alveolar e não resistiu. A família autorizou a doação das córneas da médica.

Maíra fez da vida um ideal de solidariedade e voluntariado

"Meu objetivo é seguir os caminhos da minha família, que é trabalhar voluntariamente por uma causa nobre", afirmava Maíra quando ainda era estudante de medicina em Cuba. A inspiração para o trabalho voluntário é uma característica de toda família. Maíra nasceu e cresceu acompanhando exemplos de solidariedade. Filha do ex-vereador João Fachini, que coordenou a Pastoral Operária da Igreja Católica em Joinville, e sobrinha do padre Luiz Fachini, idealizador das Cozinhas Comunitárias, a jovem sempre demonstrou vocação para atividades sociais.

O nome Maíra é inspirado em uma personagem do educador Darcy Ribeiro e em tupi-guarani significa filha da liberdade. Foi com essa liberdade que aos 18 anos ela resolveu sair do país e estudar medicina em Cuba. "Ela sempre dizia que tinha como ideal defender a vida, com uma prática essencialmente solidária, humanista a preventiva", lembrou o irmão Rodrigo.

O sonho de Maíra era poder atender comunidades carentes de Joinville. Em 2006, ela chegou a prestar concurso para residência médica no Hospital São José, passou, mas não pôde atuar devido à falta de acordo entre Brasil e Cuba para reconhecimento do curso.

"Isso a deixava muito triste. Ela havia estudado em uma das melhores faculdades de medicina do mundo, que serviu de referência para o Programa Saúde da Família brasileiro e é reconhecida por vários países".

Meses depois, recebeu um convite para trabalhar em Tefé, em plena selva amazônica. Lá, durante dois anos, Maíra realizou o sonho de cuidar da saúde de quem mais necessitava, como ela sempre planejou, desde criança.

Se depender da família da médica Maíra Fachini, a luta pelo reconhecimento do curso de medicina cubano por parte do governo brasileiro não será em vão. "Temos que buscar uma forma de fazer com que o governo reconheça esse curso que tem grande importância social pela sua formação humanista", afirmou Marcos Tiarajú.

Reumatologista explica o que é a doença

Porque o sistema imunológico de uma pessoa que tem lúpus se perde deixando de reconhecer constituintes do seu próprio corpo, passando a atacá-los como se fossem estranhos? Por que a doença atinge principalmente mulheres? Ainda não há respostas precisas, mas evidências. O médico reumatologista e professor do Departamento de Medicina da Univille, Pedro Weingrill, esclareceu alguns pontos para a nossa reportagem.

O que desencadeia o lúpus?
O nome completo da doença é lúpus eritematoso sistêmico. É um tipo de reumatismo e não se sabe exatamente o que causa a doença. Alguns fatores podem ser desencadeantes como por exemplo a luz ultravioleta emitida pelos raios solares e mesmo a luz fluorescente que usamos. Porém, na maioria dos casos, não se tem a causa desencadeante.

Quais os primeiros sintomas?
O lúpus é uma doença que compromete qualquer órgão, por isso pode haver vários sintomas: febre, mal estar, emagrecimento, dores articulares, lesões cutâneas, problemas respiratórios, renais, cardíacos e neurológicos. Os sintomas podem ser isolados ou podem acometer vários órgãos simultaneamente. Existe uma forma de lúpus que só compromete a pele.

Existe cura ou tratamento adequado?
A doença tem tratamento e quanto mais cedo se faz o diagnóstico melhor as chances de resposta a terapia. Alguns pacientes apresentam uma melhora completa quando até podemos suspender o tratamento, mas geralmente os pacientes devem fazer o tratamento por muito tempo durante a vida.

O portador da doença pode desenvolver problemas psíquicos?
A doença pode afetar o cérebro e alguns pacientes podem desenvolver sintomas neurológicos como convulsões, e podem também apresentar distúrbios mentais como psicoses. Com o tratamneto essas manifestações melhoram.

Há registros do primeiro caso diagnosticado no Brasil?
As primeiras observações sobre a doença foram feitas no final do século XIX pelo médico húngaro Kaposi. Depois de 1948, com novas descobertas laboratoriais para o diagnóstico da doença, o número de casos aumentaram progressivamente, época em que também foram descritos no Brasil.

Por que a doença atinge mais mulheres?
As mulheres são acometidas em maior frequência que os homens numa proporção aproximada de nove mulheres para cada homem, principalmente no período fértil, entre 15 e 30 anos. Isso se deve a fatores hormonais e genéticos.

Os casos da doença são sempre agressivos como o verificado recentemente?
O lúpus pode evoluir de uma forma lenta, com sintomas que vão aparecendo gradativamente durante meses. Alguns casos têm evolução mais rápida já com comprometimento severo de vários órgãos. Estes casos geralmente são mais graves, mas com tratamento podem ter uma boa evolução. No entanto, por ser uma doença que pode comprometer seriamente vários órgãos, tanto pacientes da forma lenta como da forma mais rápida podem evoluir, inclusive, para óbito.

O lúpus pode se desenvolver na infância?
O lúpus é uma doença que como dissemos é mais comum na mulher adulta jovem, porém pode também acometer crianças. Às vezes a criança inicia a doença como uma patologia renal, a glomerulonefrite, e posteriormente verifica-se que a causa da doença renal é o lúpus. Felizmente é pouco frequente em crianças.

9 comentários:

Anônimo disse...

A única forma de suportar a dor da perda é tendo a certeza da vida plena. Ao deixar o Brasil Maira escolheu o evangélico caminho da solidariedade com o próximo, ao deixar Joinville para ir para o meio da selva cuidar das populações ribeirinhas Ela escolheu a vida dos outros, se entregando a sua ideologia e buscando a vida mesmo que isto custasse a sua. Como Che Guevara ela largou tudo para cuidar dos enfermos.
Maira é liberdade, Maira é amor, Maira é vida, Maira é muita saudade e muito orgulho.

Anônimo disse...

De que adianta viver sem ser vida
De que adianta viver sem salvar
De que adianta viver sem ser lembrado
Maira é vida pois Ela salvou muitos, por isto jamais será esquecida.

Anônimo disse...

Maíra deixou uma história de obstinação e solidariedade. Com certeza seus ideais serão levados à frente. Parabéns pela reportagem.

tonioti disse...

Com certeza pessoas como esta deixara saudades para a comunidade joinvillense!

Anônimo disse...

Que linda história, que lindo ser humano. Realmente emocionante. Que lição de vida. Um orgulho para todos nós joinvilenses.

Aluísio Tadeu de Souza disse...

Vi Maíra nascer, crescer.
Sempre lembrarei de sua simpatia, seu carinho, que certamente era a sua marca no atendimento as pessoas.
Abraço, família Fachini, amo vocês.

Pardal.

Miguel Teixeira Filho disse...

Belíssimo o comentário acima, "Maíra é liberdade, Maíra é amor, Maíra é vida, Maíra é muita saudade e muito orgulho".
A Dra. Maíra abriu os braços aos necessitados. Deus abriu-lhe os braços, acolhendo-a no paraíso. Que a família Nele encontre o conforto, neste momento.

ana disse...

sinto muito ..tristesa em familia minha cunhada esta na uti com orgaos comprometido pelo lupus doença triste q destroi aos poucos ...assim como maira ela tbm e uma jovem de 30anos ..

joedh disse...

Meu primo Renato está entre a vida e a morte em um hospital aqui em Manaus devido ao Lúpus, por favor orem por ele, ele também nunca foi uma pessoa ruim, é evangélico mas precisa que Deus faça um milagre ainsa mais em sua vida para que não se vá assim como vocês perderam Maira.