Tragédia no colégio Bom Jesus: NEGLIGÊNCIA OU FATALIDADE?

Jacson Almeida
jacson@gazetadejoinville.com.br

“Não esqueçam sempre de abraçar seu filho. Eu só queria dar um abraço em meu filho”. Este foi o lamento do pai Carlos Akrouche quando via pela última vez seu filho, João Davi Akrouche, 12 anos. O garoto sentiu um mal estar e faleceu depois de três paradas cardiorrespiratória na quinta-feira (05). O que poderia ser mais um alegre jogo de futebol suíço acabou em lágrimas numa gincana realizada pelo Colégio Bom Jesus, unidade do Saguaçu.

TRÊS PARADAS CARDÍACAS

O dia estava ensolarado, com máxima de 35º, quando as crianças jogavam às 14 horas, horário de verão. João acabara de jogar quando cedeu lugar na quadra para um amigo. Ao sair passou mal e caiu. A criança da 6ª série vomitou e perdeu os sentidos. Teve ainda parada cardiorrespiratória. Os professores fizeram os primeiros socorros.
Foi chamada a equipe do Samu, que chegou a reanimá-lo com ajuda de um desfibrilador. O menino foi levado ao Hospital Infantil Jesser Amarante, mas no caminho sofreu outra parada cardíaca e não resistiu.

A família de João Davi conta que ano passado o garoto teve um desmaio jogando futebol. Segundo a médica que cuidava do menino há 11 anos, Ana Maria Martins, clínica geral e homeopata, naquela ocasião todos os exames foram feitos e nada foi constatado.

“Para ele, tudo estava bem”

Carlos Akrouche lembra que na quinta-feira João acordou de manhã empolgado, como sempre. No dia anterior o pai viu um jogo com o filho e pediu para ele dormir, que no dia seguinte tinha olimpíadas. O garoto, que sempre praticou esporte, teria que estar preparado.

João Davi freqüentava escolinha de futebol e tinha feito mais exames neste ano. Emocionado, o pai conta que o filho nunca estava triste.

“Para ele, tudo estava bem”, diz a mãe de João, Eliane Aparecida da Silva. Conforme ela, as pessoas tinham prazer de estar perto dele.

A médica Ana Maria, que cuidava do garoto, deixa claro que ele sempre freqüentou médicos e seus exames sempre estavam ótimos. Ela afirma ainda que os pais levaram o filho para fazer exames, até aqueles que, muitas vezes, não fazem em crianças.

O que houve?

Ainda não se sabe as causas da morte de João Davi. Mas muitos pais e mães que têm filhos no Colégio Bom Jesus estão com medo e revoltados. O que se questiona é porque uma criança joga futebol debaixo de um sol de 35º.

A médica do menino, Ana Maria, diz que a morte de João Davi vai levantar uma bandeira: educação física não pode ser no primeiro horário.

Além disso, na hora da morte do garoto não havia nenhuma ambulância no local, sendo que era um evento onde qualquer criança poderia se machucar. Na quinta-feira, a equipe de socorristas demorou trinta minutos. O tio do garoto, Georges Sabbach, conta que houve desencontro de informação. Disseram para o SAMU que era no Bom Jesus e a equipe médica acabou indo para a unidade do Centro, e não do Saguaçu onde o garoto estava. A morte de João Davi foi confirmada às 15h, uma hora depois de passar mal.

A doutora Ana Maria alerta que toda a escola deveria ter um serviço de paramédico, principalmente em eventos.

Bom Jesus

O diretor-geral da Associação Educacional Luterana Bom Jesus, Tito Lívio Lermen, não quis se pronunciar sobre o caso. Ele diz que os fatos estão sendo esclarecidos.

“Lei João Davi Akrouche”

A vereadora Tânia Eberhardt (PMDB) é autora do Projeto de Lei 31/2005 que propõe obrigatoriedade de aquisição de Desfibrilador Automático Externo (DAE), equipamento usado para regularizar o ritmo cardíaco, para todo local com grande concentração de pessoas. O aparelho seria usado na prevenção de casos da chamada morte súbita.

O projeto já foi aprovado e só falta ser regulamentado pelo prefeito. Segundo ela, se uma pessoa não for atendida nos primeiros cinco minutos com o aparelho, as chances de sobreviver são mínimas.

Para a vereadora, se o colégio Bom Jesus tivesse um aparelho seria uma grande chance de salvar a vida do menino. “Instituição que quer preservar o nome e a consciência tem que ter o desfibrilador”, mas para usar o aparelho teria de ter alguém especializado.

O pai do menino, Carlos Akrouche também diz que seu filho estaria com ele se existisse um desfibrilador.

Tânia conta que com a tragédia de João Davi, a regulamentação da lei possa ser mais rápida. “Lamentavelmente a gente precisa perder para ganhar”, diz.

Emocionado, o pai do menino espera que essa lei se torne verdadeira. “Eu peço para que essa lei se chame João Davi Akrouche”, enfatiza. Além da obrigatoriedade do desfibriladores, o pai alerta para que o colégio tenha médicos para cuidar dos alunos.

entrevista • Marylane Dantas • cardiologista pediatra

“Os pais estão em pânico”

A médica Marylane Christian Feitosa Dantas, cardiologista pediatra, tem um filho no colégio Bom Jesus. Ela estava na gincana na quinta-feira em que João Davi morreu. Agora pretende dar uma palestra na instituição para acalmar e auxiliar os pais de alunos e a comunidade. Marylane deu uma entrevista à Gazeta sobre o caso.

Identificando o problema
É difícil cobrir 100% das doenças. O eletrocardiograma e raio-x do tórax conseguem detectar 95% das doenças que causam morte súbita nas crianças. E 95% é muito, mas não é 100%. Às vezes a primeira manifestação da doença pode ser a morte súbita. Ele (João Davi) morreu no momento do desmaio. Ele foi reanimado e morreu de novo. Tanto que ele chegou morto no Hospital Infantil. Pode ter sido um aneurisma que estourou. Foi uma conjunção de fatores.

Almoçar e praticar atividade física
Estava muito quente no dia. Ele tinha acabado de almoçar. Ele era um bom atleta e participou de todos os jogos. Se ele tivesse uma doença predisponente, aconteceu ali. Você pode comer e fazer uma atividade física leve. Meia hora é suficiente para você fazer a digestão. Realmente o sol muito quente causa perda de líquido e é causa freqüente de desmaio. Só que se você desmaiou, você acorda. O ambiente favoreceria uma síncope, um desmaio. Mas ninguém vai morrer. Havia fatores predisponentes, mas não causa a morte.

Atenção para os pais
Hoje os jogos deixaram de ser recreativos e há cobranças. Até onde seu filho pode ir? Mas a instituição, e o pai que deixou a criança, devem saber se a criança aguenta aquele tipo de esforço. Só o exame clínico, com o pediatra, é superficial. Tem que fazer pelo menos um eletrocardiograma, que custa R$ 20.

Falta de paramédicos no Bom Jesus
Como mãe, meu ponto de vista, achava necessário ter uma ambulância no local. Em jogos é obrigatório mesmo. Precisa do médico e de uma ambulância.

Ambulatório no Bom Jesus
Existe uma enfermaria com uma atendente, não é nem uma auxiliar de enfermagem.

Pânico dos pais
Os pais estão em pânico. O consultório está lotado. As pessoas estão com medo. As pessoas tinham que conhecer melhor. Os pais tinham se preocupar em fazer exames mais detalhados antes de deixar a criança fazer atividade física exaustiva.

2 comentários:

Anônimo disse...

Pessoas, chega a ser ridículo esse "desespero dos pais"... O que aconteceu foi uma fatalidade, ocasionada por fatores pré-existentes. Não tem nada a ver com sol ou calor... Deixem as criancas em paz, deixem de ser superprotetores e de mimar... Donas de casa com filhos no Bom Jesus: procurem algo pra fazer!

Andreia Beatris disse...

Acredito em fatalidade, neste caso.
Mas eu gostaria de saber,se tem alguma lei que obriga os colégios a ter na enfermaria uma enfermeira de plantão? pois meu filho 12 anos se machucou a 1 mês atras no colégio (tb particular)e ao chegar lá descobri que uma senhora que trabalha no colégio (servente eu acho q era ) é a pessoa que faz os atendimentos na enfermaria, ao questionar se ela era enfermeira, ela me respondeu que não era, mas que cuidava dos assuntos da enfermaria... Confesso que fiquei chocado com o descaso dos colégios particulares. Tem lei pra isto??
Andreia