Dinilson Viera
especial para a Gazeta de Joinville
Endereço da residência do governador de Santa Catarina, Luiz Henrique da Silveira, e entre os três núcleos populacionais mais antigos da cidade, o bairro Boa Vista é considerado por moradores um misto de desapontamento e orgulho. De acordo com a Secretaria Regional do bairro, a Associação de Moradores e Polícia Militar, no topo da lista de problemas está o caos no trânsito, que desafia autoridades e revela números preocupantes. "Já entrei na contramão porque o trânsito em Joinville é confuso e as vias mal sinalizadas. Isso vale para a cidade inteira, inclusive no Boa Vista", afirma o tenente coronel Edivar Antonio Bedin, comandante do 8º batalhão da Polícia Militar.
Entre 1º de janeiro e 22 de agosto deste ano, das 222 vítimas de acidentes de trânsito em Joinville registrados pelo batalhão, 40 tiveram origem no Boa Vista. Ainda de acordo com o batalhão, que cuida de 25 bairros, no mesmo período houve 2.100 acidentes, dos quais 94, com danos materiais foram no Boa Vista.
"O trânsito é horrível. Temos um acidente com moto ou bicicleta quase todos os dias. Cansei de pedir à Prefeitura para pintar as faixas de travessia de pedestres, que estão apagadas no asfalto. Os atropelamentos preocupam bastante", afirma o presidente da Associação, Ademir Mario Frisanco.
O secretário regional Michel Ubirajara Becker, cuja família reside no bairro há quatro décadas, admite a necessidade de iniciar uma campanha de humanização no trânsito. "Para ter um exemplo, no cruzamento das ruas Limeira e Albano Shimidt trafegam motoristas que não respeitam o sinal vermelho e o resultado são os acidentes. Alguns moradores sugerem que a poucos metros antes do local, na própria Albano (sentido centro-bairro), seja instalado um semáforo, o que poderia reduzir a velocidade na via. Mas depende de estudos técnicos da Secretaria de Infraestrutura", afirma Michel.
Só "Deus" para segurar os motoristas apressados
Comerciante e morador do bairro há 17 anos, Ademar Pereira conta que já testemunhou acidentes no cruzamento com a Limeira, onde fica sua papelaria. "O último foi recentemente. Duas ciclistas foram atropeladas e ficaram bastante machucadas. O motorista do carro disse que passou no sinal verde e elas disseram o contrário", afirma Ademar. Para o comerciante, o fato de ciclistas poderem trafegar pelas ciclovias nos dois sentidos de direção representa um perigo. "Isso confunde até quem deseja atravessar as ruas."
Na rua Helmuth Fallgatter o perigo de atropelamentos é tanto que o morador e ambulante Valdelino Martins se transforma em agente de trânsito pela manhã para ajudar crianças a atravessarem na faixa de segurança e chegar à escola. Detalhe: o local citado fica em frente à praça formada pelo encontro das ruas Helmuth e Erhard Wetzel, exatamente onde fica a casa do governador e o PA (Pronto-Atendimento Médico). "Ninguém respeita a faixa e os acidentes só não ocorrem com mais frequência por causa da mão de Deus". Para o ambulante, nem a família do governador é respeitada.
SAÚDE: Divididos entre elogios e queixas
Por causa do possível desaparecimento de um carimbo do clínico geral, que atende em um dos consultórios do Posto de Saúde Bakita, na rua São Miguel, a dona de casa Maria Ana Estácio, moradora do Boa Vista há 36 anos, foi obrigada a atrasar em pelo menos oito dias o eletrocardiograma que faria no Hospital Regional Hans Dieter Shmidt. "O carimbo sumiu do médico e minha guia ficou incompleta", afirmou a dona de casa.
Trapalhadas com essa relatada por Maria Ana, além da demora para se conseguir marcar cirurgias e consultas, fazem parte da rotina do posto.
O aposentado Osmar Azevedo, morador da rua São Miguel, diz que precisou esperar 30 dias para passar por uma consulta. No dia em que foi ao médico, esperou mais cinco horas para sair do posto com medicamentos para problemas respiratórios, causados pelos anos em que trabalhou com tinta. "Mas a demora compensou pela quantidade de remédios que recebi", diz Osmar. A Secretaria de Saúde foi procurada para falar sobre o assunto, mas não deu retorno à reportagem.
Infraestrutura: Alívio aos moradores do bairro
Já um dos motivos de orgulho – e alívio aos moradores – do bairro está a queda no índice de criminalidade. Também chamam atenção as suas 120 ruas geralmente bem varridas, das quais apenas cinco não são pavimentadas. Outro aspecto positivo é que 99% de seu território de 5,82 quilômetros quadrados, habitados por cerca de 18 mil pessoas, é coberto com luz elétrica e água encanada. Prevalece na vizinhança a política de que todos se conhecem e um ajuda o outro.
A distância média do bairro ao centro é 2,4 quilômetros, percurso que moradores costumam fazer em caminhadas para manter a forma, principalmente em fins de semana. A pujança econômica impressiona: são 575 pontos comerciais e 555 de serviços, que oferecem desde venda de automóveis, de pescados e material de construção até consultórios médicos, escritórios de contabilidade e correios. Alvo de reclamações, a exceção fica por conta da ausência de agências bancárias. No cadastro técnico da Prefeitura consta ainda que o bairro possui 85 indústrias, com destaque para a Tupy, que emprega mais de seis mil pessoas e ajudou a construir a cidade.
VAI DE BICICLETA Há ciclovias nas duas principais ruas, Albano Shimidt e Prefeito Helmuth Falgatter, além da Beira Mangue, em que os postes são equipados com duas lâmpadas, uma voltada para os carros e outra às bicicletas. As ciclovias beneficiam diariamente milhares de pessoas em direção ao trabalho, escola ou casa, o que significa uma economia de R$ 2,30 por passagem de ônibus. "Gosto do bairro porque encontro tudo o que preciso aqui e à noite é possível sair com a família a pé e comer uma pizza sem ser assaltado", diz o aposentado Osni Santos de Souza, que mora há 23 anos na mesma casa, na rua São Vicente.
Saneamento: Desrespeito ao mangue continua evidente no Boa Vista
De acordo com o site oficial da Prefeitura de Joinville, a Companhia Águas de Joinville não tem o registro da proporção de esgoto doméstico despejado nos remanescentes de mangue do braço do rio Cachoeira, área de proteção ambiental. Mas o despejo é feito à luz do dia, conforme verifica Everton Correa Soares, que trabalha e reside há 23 anos na esquina das ruas São Miguel e Beira Mangue, local em que desemboca uma rede de esgoto direto no mangue. O local ainda serve de depósito de entulho e outros tipos de materiais despejados por populares e pela própria Prefeitura, segundo denúncia de Everton.
A casa do comerciante e outras centenas no bairro contam com fossas sépticas, que retêm dejetos mais sólidos, mas destinam à rede de esgoto a água contaminada. "Essa água cai direto no mangue. É só olhar o que sai do cano", afirma Everton, mostrando o cano. Ele diz que procura convencer vizinhos a não jogar lixo no local. "É uma tarefa difícil, pois a própria Prefeitura joga material aqui."
O aposentado Osmar Azevedo, morador do número 903 da rua São Miguel, diz que também faz o que pode para impedir a degradação do mangue. Ele sugere que a Prefeitura mantenha caçambas em alguns pontos, a fim de impedir que o lixo se espalhe. "Já vi caçambas por aqui, mas não eram da Prefeitura", declara Osmar.
O secretário regional Michel Becker explica que o bairro não conta com uma ação específica para recolher o material, normalmente não transportado pela coleta feita três vezes por semana (às segundas, quartas e sextas-feiras). "As regionais não têm um aterro sanitário apropriado e o problema vai persistir por algum tempo", declara o secretário.
Segurança: Menos assaltos e mais alerta da polícia militar
O bairro comemora a redução da criminalidade. De acordo com o capitão Gelásio Pires, comandante pela 2ª Companhia do 8º Batalhão da Polícia Militar, os números caíram em quatro tipos de crime: assaltos em residência (foram 15 no primeiro semestre de 2008 contra cinco no mesmo período desse ano); furto em residência (23 a 16); furto a estabelecimentos comerciais (17 a três); e furto de veículos (21 a nove). "As operações barreira que realizamos têm relação com a redução da criminalidade", afirma o policial.
Mas quem já sofreu na mão de bandidos não esquece o trauma. Dono de duas lojas de móveis usados no bairro há 29 anos, Geraldo de Oliveira relembra da tarde em que teve um revólver apontado para a cabeça. "Estava eu e um empregado numa das lojas quando dois rapazes que chegaram de moto e entraram gritando por dinheiro. Meu empregado, que já faleceu, foi agredido e a dupla levou pouco dinheiro", relembra Geraldo.
Depois da experiência, o comerciante toma alguns cuidados. "Quando chove e começa a escurecer, redobro a atenção, porque fica mais fácil para os ladrões agirem". Ademar Pereira, outro comerciante, dono de papelaria, também não esquece quando dois motoqueiros assaltaram o salão comercial que mantém alugado ao lado de sua loja. "Agora, quando alguém entra de capacete na minha loja, eu mando tirar. Caso contrário, não atendo".
O capitão Pires confirma que, atualmente, a principal preocupação no bairro é com os assaltos. "Estamos para receber mais uma viatura, que vai reforçar de dois para três o número de guarnições no bairro", diz o policial. Sobre o policiamento realizado com bicicletas, uma reivindicação da Secretaria Regional do Boa Vista, Gelásio afirma que o assunto será estudado junto à Prefeitura.
Experiência inédita
Para tentar soluções para problemas como o de trânsito, o Boa Vista vive uma experiência inédita. A Associação de Moradores e a sede da Secretaria Regional passaram a dividir, desde março de 2008, o mesmo galpão situado na rua Albano Shimidt, 2.116. Significa que, pelo menos teoricamente, a demanda de reclamações e sugestões que chega à associação deveria aportar quase que imediatamente à secretaria, bastando apenas ao presidente da entidade atravessar um corredor e conversar pessoalmente com quem detém o poder de resolver problemas.
Na prática, porém, não é bem isso que acontece, já que de cada dez pessoas que procuram a associação, oito solicitam cestas básicas e material de construção para terminar suas moradias. Pedidos desse tipo não cabem ser atendidos diretamente pela secretaria, que prioriza reclamações de bueiros entupidos, buracos no asfalto, lixo acumulado em áreas de preservação ambiental e até de falta de médicos nas duas unidades municipais de saúde do bairro. "Para o nosso tipo de demanda não vejo a necessidade de atravessadores. Nosso atendimento melhorou e até criamos um blog (www.regionalboavista.blogspot.com) para interagir com a população", afirma o secretário Michel Becker. Já o presidente da associação lamenta: "Não conseguimos resolver 98% dos pedidos que chegam até nós".
Um pouco de história
Quando Eduardo Schroeder, filho do Senador Mathias Schroeder veio a Joinville, em 1851, com a finalidade de verificar as condições da Colônia Dona Francisca, encontrou algumas fazendas instaladas no Boa Vista. Com efeito, Carlos Ficker em "História de Joinville", relata na página 32: "No Boa Vista, encontramos o nome de Antônio Budal, do lado oposto do Rio Cachoeira(...)"
E acrescenta: "No morro da Boa Vista,(...) havia moradores". No primeiro mapa de demarcação de Joinville, elaborado pelo engenheiro Jerônimo Coelho, em 1846, já existia a denominação de Boa Vista para a região e o morro da Boa Vista era conhecido por Morro da Cachoeira. Estes dados confirmaram que o Boa Vista, juntamente com o Itaum e o Bucarein, constituem os mais antigos núcleos populacionais da cidade, dando uma pré-configuração aos atuais bairros.
Greve dos servidores da Prefeitura 2011
Há 13 anos