Mulher que acusa médico de crime sexual não tem antecedente criminal

Dinilson Vieira
especial para a Gazeta de Joinville

A mulher que acusou o médico José Carlos Mansur Ferreira, de 43 anos, de cometer contra ela atentado violento ao pudor dentro do Ambulatório Central de São Francisco do Sul, em 12 de junho de 2008, nunca respondeu a qualquer processo por tráfico de drogas ou por outro tipo de crime. Também não esteve presa. A ficha limpa de A.S., 32 anos, foi divulgada pelo promotor criminal Cristian Richard Oliveira e contraria a versão de Mansur, que alega em sua defesa que a paciente possui antecedentes criminais e cumpre pena em regime aberto. Além disso, o médico, que chegou a ficar quatro dias preso, alega que a paciente tentou extorqui-lo em R$ 3 mil através de chantagem, por "saber muito a seu respeito".

Na terça-feira à tarde (4), A.S foi localizada pelo Gazeta em seu local de trabalho, no centro de São Francisco, e interrompeu um silêncio que durava desde o momento em que denunciou o médico na delegacia do município, em 12 de junho de 2008, logo após deixar o consultório dele. "Ele vai usar de todas as formas para me atingir, mas não tenho medo", afirmou, acrescentando que o fato prejudicou seu casamento, que teve pesadelos, mas acredita na justiça divina. Ela mandou um recado a mulheres que venham a passar pelo que ela afirma ter sofrido: "Não fiquem caladas, não precisa ter vergonha de denunciar. Isso acontece com várias mulheres e elas ficam caladas. Daí eles (médicos) continuam fazendo, mas a justiça precisa ser feita". Disse ainda que vai processar Mansur e não descarta a possibilidade de exigir indenização.

Médico e suposta vítima mostram versões diferentes

Mansur exerce a medicina há 13 anos e recebeu voz de prisão em 24 de julho passado, quando atendia pacientes no Ambulatório de Araquari, onde também trabalha. Foi o promotor Richard que ofereceu denúncia contra o clínico geral médico sobre o caso de A.S., pedindo sua prisão preventiva. Quatro dias depois, o médico deixou a cadeia através de habeas corpus concedido pelo Tribunal de Justiça. No mesmo dia, ele alegou em entrevista que a paciente insistiu por exame ginecológico. "Disse que não era minha especialidade. Não fiz toque vaginal e nem toquei os seios da paciente. O consultório não possui mesa para esse tipo de exame".

Já o depoimento de A.S à polícia diz o contrário: "(...)O médico mal olhou para o exame e pediu que a depoente deitasse na maca, pois ele ia examiná-la. Que o doutor Mansur começou a examinar a depoente sem luvas, começando em apalpar a barriga, abrindo o zíper da depoente, introduzindo o dedo na vagina da depoente, provocando movimentos como se estivesse apertando seu útero. Que no momento da consulta o médico fechou a porta e que não havia nenhuma enfermeira no local. Que a depoente ficou muito constrangida".

Suposta vítima tem três homônimos

Existe a hipótese de Mansur, através de seu advogado, não medir conseqüências para tentar desqualificar os antecedentes de A.S. Em depoimento feito à Promotoria de Justiça da São Francisco, com data de 18 de outubro de 2008, ao qual a reportagem teve acesso, o médico é enfático: "(...)A senhora Andréia é natural de Araquari, onde reponde por processo criminal com condenação em trânsito e julgado; que a mesma cumpre pena em regime aberto(...)".

Mansur nunca deu pistas concretas que pudessem levar ao paradeiro da mulher que dizia ter se consultado com ele, mas fez questão de certificar que a mesma tinha envolvimento com drogas e não era confiável. Em pesquisa no sistema judiciário, a reportagem chegou a três homônimos com implicações na Justiça na região de São Francisco.

Na segunda-feira (3), uma mulher com as iniciais A.S. acabou localizada em Barra do Sul. Surpresa, ela disse que nunca se consultou com médicos em São Francisco, confirmou que já tinha sido presa por tráfico de drogas e que estava em liberdade condicional. Ela suspeitou que seu nome pudesse estar sendo usado inadequadamente. A reportagem ainda foi atrás de outra homônima na margem do Canal do Linguado, em Araquari, mas não a encontrou.

A dúvida foi esclarecida pelo promotor Cristian Richard, que na terça-feira (4) cruzou os dados de paternidade da verdadeira A.S. que denunciou o médico e constatou que ela não tem antecedentes criminais. "Com essas novas informações, vou ficar de pé atrás com o médico", disse o promotor. Segundo o defensor público, os crimes sexuais são difíceis de serem apurados: "São terríveis, pois nenhum de nós está livre de sofrer uma acusação em falso. Mas não posso desprezar a palavra de uma que se disse violada", afirmou o promotor.

Entrevista exclusiva • A.S.

Acusação de chantagem
Nunca houve nada disso. Fui lá para me consultar pela primeira vez. Ela já foi muito indelicado, mal-educado comigo.

A consulta
Nunca passei por isso, foi a primeira vez, uma situação constrangedora que nem gostaria de estar repetindo, de falar. Tive duas consultas com ele (o médico Mansur). (A. prestou depoimento ao delegado titular de São Francisco, Ivan Brandt, em que expõe com detalhes os ataques sexuais que afirma de ter sofrido).

Sem antecedentes
Jamais, pode ir em uma delegacia e ver se tem alguma ficha minha. Pode ir à delegacia e ver se tem algum registro meu. Estou com minha consciência limpa, só quero que se faça justiça, porque o que o médico fez comigo, ele fez com mais pessoas. Só que eu tive coragem de denunciá-lo. Tem pessoas que não tiveram coragem.

Uso de homônimo
Isso só que dizer que ele está com medo. Estou com a minha consciência limpa. Ele vai usar de todas as forma para me atingir. Não tenho medo, porque ele sabe que no fundo ele fez isso. E não foi só comigo, foi com outras pessoas.

Queixa na delegacia
Saí do consultório direto para a delegacia. Foi eu e minha amiga, prefiro não falar o nome dela (trata-se da funcionária do ambulatório que foi arrolada como testemunha favorável a paciente). Antes de ir à delegacia falei com ela sobre o que aconteceu comigo, se já havia acontecido. Não sabiam de nada, mas é porque é uma coisa muito constrangedora. O povo se esquiva de falar. Vou levar até o fim, porque pelo quê ele fez tem de ser punido. Porque a justiça tem de ser feita.

Médico fora da cadeia
Ele devia estar preso e vou levar o processo em diante. Ele vai fazer isso com outras pessoas, porque dá para ver que ele não tem escrúpulos. A justiça no Brasil é assim mesmo, o que a gente pode fazer. Mas eu tenho Deus, sou evangélica e a justiça de Deus não falha.

O estrago
Sou casada e não tenho filhos. Tive muitos pesadelos, me esquivei muito do meu marido, me afastei muito dele por um tempo, porque é uma coisa muito difícil. A gente vê as coisas pela televisão e nunca imagina que um dia vai acontecer com a gente. É complicado.

Outras mulheres
Não fiquem caladas, essas pessoas precisam ser punidas, não podem ficar impunes. Não precisa ter vergonha. Isso acontece com várias mulheres e elas ficam caladas. Aí eles continuam fazendo, mas a justiça precisa ser feita. Porque é muito fácil para quem tem dinheiro falar o que ele falou. Ele diz que vai me processar, mas eu é que vou processar ele.

Indenização
Ainda não sei sobre isso, vou conversar com meu advogado, que vai me direcionar sobre o que fazer.

Médico nega tudo

"Por que ela não gritou na hora em que estava sendo examinada? Indagações como essas são feitas pelo clínico geral José Carlos Mansur quando questionado a respeito da balconista A.S., que o acusa de cometer contra ela atentado violento ao pudor. Mansur nega que tenha realizado exame ginecológico em A. dentro do Ambulatório central de São Francisco do Sul em 12 de junho de 2008 e alega que foi chantageado. "Ela queria R$ 3 mil".

"Toquei o abdômen dela e não havia enfermeira na sala porque não faço esse tipo de exame", disse o médico. Mansur afirmou que um clínico geral normalmente não realiza exame ginecológico, embora o código de ética da profissão não proíba a prática.

Questionado sobre uma possível tentativa de difamar os antecedentes de A. utilizando informações criminais de uma mulher homônima, de Barra do Sul, Mansur se justificou: "Não sei se a mulher que se consultou comigo se tratava dessa mesma pessoa (de Barra do Sul). Imaginei que pudesse ser". Ele disse ainda que não conseguiria identificar a mulher que o denunciou através de fotografia.

5 comentários:

Anônimo disse...

Repórter novo já fazendo não-jornalismo.
Calma, prudência e caldo de galinha nunca fizeram mal a ninguém.
Acharam que tinham dado um furaço entrevistando o médico? Tá aí a resposta. Quase um desmentido do jornal. Vergonha.

Rivaldo Ribeiro disse...

Sinceramente não entendo alguns "anônimos" que comentam por aqui. Não sei que tipo de VERGONHA que o sr viu na excelente reportagem desta semana da Gazeta. Pergunto: algum outro veículo de comunicação foi ouvir o médico? Alguém foi atrás da moça? Respondo: que eu saiba não. Portanto, de parabéns a Gazeta que mostrou os dois lados da história e deixou para nós leitores decidirmos quem está falando a verdade. Quanto ao sr, senhor anônimo, volte escutar o Gebali, Verissimo e Toninho Neves, pois aquilo sim é uma vergonha.

Anônimo disse...

pobre senhora vai acabar ela aindapresa se depender desta justiça ja viran rico perder na justiça para pobre

RON@LDO disse...

Por isso a Gazeta é minha preferida. Tem coragem para mostrar o que tiver que mostrar. Me deixa a sensação que temos um jornal de verdade. Os ricos, poderosos e espertalhões todos tem medo da Gazeta. E devem ter medo mesmo, porque se eles sairem da linha a Gazeta vai mostrar.

Anônimo disse...

Tá cheio de médico safado, doente sexual, fazendo isso nos consultórios médicos. Ele mente deve tá mentindo com essa história de homônimos aí. Com certeza o advogado dele (esses sao umas rapozas) deve ter sugerido essa jogada aí ,mas o Sr. Promotor e o Juiz, nao sao idiotas, rapidinhos eles arrumaram uma maneira de tirar a dúvida.A coitada da mulhé vai gritar ainda na hora do exmae? Como? Eu tambem so mulhe e se eu fosse no médico e ele fizesse isso em mim eu ia ficar tao perdida e constrangida que ia ate perder a voz.Depois é que a gente se dá conta do abuso. Tomara que outras mulheres nao tenham medo e venham pra denuncia ele tambem.
Chega de injusticia nesse pais